
O título em português é "Almas Mortas" e foi em português mesmo que eu li. Coloquei o título em russo porque é uma maneira de eu escrevê-lo e preciso disso para me ajudar a memorizar as palavras. Já conhecia душа, mas não conhecia o adjetivo "morto" em russo, мёртвый. E o que me fez escrever aqui é que Gogol me fez uma pergunta:
"Mas qual de vocês, cheio de humildade cristã, não em voz alta, mas em silêncio, sozinho, os momentos de solidão em que conversa consigo mesmo, qual de vocês se aprofunda no interior da própria alma com esta pergunta incômoda: 'Será que, dentro de mim, não existe uma pitada de Tchítchikov?' " [Gogol, p. 253, Editora 34, 2a ed., 2019].
Quando cheguei nesta parte, eu já estava me fazendo perguntas nem tanto sobre o funcionamento das pessoas, porque isso é e sempre será, em princípio, um mistério, mas sobre o funcionamento das pessoas na sociedade, ou seja, sobre as relações que as pessoas estabelecem quando convivem juntas. Eu estava tomando conhecimento, no Capítulo X, dos hábitos comuns e diários de funcionários da Rússia Imperial, cada qual, contra a lei, tomando um vantagem da posição ocupada para poder roubar - não há outra palavra para designar isso. A leitura me levou a pensar em outras coisas, mais particularmente aquilo que aqui no Brasil às vezes ganha o rótulo de complexo tupiniquim. Estanha conexão? Nem tanto, já vou explicar.
Uma variante específica desse complexo propõe que nós, brasileiros, somos um povo desonesto e preguiçoso, e isso é aceito como um fato, apesar de fatos em contrário. Por exemplo, estatísticas de endividamento mostram que as classes mais pobres são as que mais saldam suas dívidas [aqui eu poderia buscar alguma referência ou notícia do jornal Nacional, onde essa estatística é muito comum... até me perguntei agora se esta estatística é verdadeira ou se existe uma publicidade para levar as pessoas a saldarem as dívidas, mas enfim, o dado existe]. E, com as classes mais pobres equivalendo a mais da metade da população, o correto seria dizer que "o brasileiro" - com todo peso lógico que esse "o" estabelece - está mais para honesto do que para desonesto. Também serve de ilustração uma outra notícia que esteve circulando nos jornais há algum tempo: os sócios das Americanas.com deram um rombo bilionário na empresa e prejuízo para distribuidores, sistema financeiro, etc. Pessoas que conseguem embolsar bilhões de reais e não ser presas são uma minoria e, portanto, não têm peso em tamanho de população para que a gente se refira a eles como "o brasileiro".
O fato é que esta leitura de Мёртвые души (que se pronuncia como "miórtviê duchí") veio se chocar em mim com essa ideia de que somos um povo "desorganizado", para usar uma palavra mais ampla e que pode conotar todo tipo de falta possível nesse nosso século de ciência, conhecimento e possibilidades infinitas, em que se fala em ir a Marte na década de 2030, apesar de não se conseguir um sachê de ketchup que seja possível abrir sem a ameaça de quebrar um dente, morder a língua ou rasgar uma unha (e quando falo isso não me limito apenas à tecnologia, pois imagino que deva haver, pelo menos na China, alguma marca de ketchup cujo sachê seja possível rasgar e abrir com facilidade).
Pois essa ideia de que nós brasileiros ficamos para trás no bonde da história, de que aqui não se trabalha tanto, de que nossas escolas não são boas, de que o transporte público é um lixo, enfim, esse complexo tupiniquim deixou de ser uma exclusividade brasileira no meu pensamento. Não só por causa do livro do Gogol, mas também porque estive lendo "O romance luminoso", de Mario Levrero, e o livro está cheio de passagens em que ele fala do Uruguai como o país em que "as pessoas adoram uma notícia de morte", em que o autor descreve o serviço de energia elétrica do governo como um lixo, as praças de Montevideo como barulhentas, intransitáveis, onde a polícia não contém os assaltos... E terminei chegando numa memória de mais de 30 anos, quando conheci Martha, uma amiga colombiana que veio a Manaus estudar e me contou, para minha surpresa, que não entendia quando eu reclamava do Brasil e me contava que na Colômbia existiam táxis falsos, não sendo incomum o passageiro desembarcar em um aeroporto ou uma rodoviária e lá estar, entre os táxis disponíveis para transporte, muitos táxis que têm como sua única finalidade assaltar o passageiro assim que ele saia da rodoviário ou aeroporto (talvez isso tenha mudado, porque agora essa profissão está desaparecendo, e as pessoas estão passando a utilizar o Uber e outros serviços de transporte, e haveria muitos parênteses para serem abertos só neste ponto do Uber, mas não quero me perder no raciocínio...).
Então, essa ideia de que o esgoto do mundo é aqui (uma ideia que, se eu postar no Twitter*, eu poderia receber ameaças de morte de metade das pessoas, enquanto a outra metade me diria que eu tenho toda razão), essa ideia de que não valemos nada, ou seja, esse complexo tupiniquim, passou a ter outros sentidos para mim. Parece mais que russos do século XIX e, hoje, brasileiros, uruguaios, colombianos têm uma autoimagem negativa, uma fantasia que, acredito, possa estar apoiada na ideia de que, em outro país, as coisas são melhores. "Vamos para Paris", e postam fotos na Torre Eiffel, mas não postam fotos nem falam do medo dos trombadinhas nas estações de metrô dessa capital de um país supostamente desenvolvido e melhor. Mas o que é melhor?
Voltando ao tema, Gogol pergunta: lá no fundo, cada um não tem um pouco desses defeitos do personagem Thítchikov, defeitos que são fáceis de enxergar nos outros, mas imagina-se imune a eles? Essa pergunta me paralisa o pensamento porque eu não consigo encaixar ao mesmo tempo a ideia de que somos nada (essa versão do complexo tupiniquim) convivendo ao mesmo tempo com a ideia de que o mal está nos outros próximos de nós (os outros brasileiros, para os brasileiros; para os uruguaios, os outros uruguaios, etc...). Como isso é possível? Eu sou o puro, a exceção que salvaria o meu grupo? Cada um de nós seria aquele ser puro e perfeito que, se os outros copiassem, formaria a comunidade ideal?
Essas são algumas coisas que esse livro me fez pensar, num caminho totalmente diferente daquele que eu supunha, quando comecei a ler depois de ter sido atraído pelo título, por seu significado direto: a morte.
* Sim, eu sei que é X agora, mas eu sou um velho, do tempo do Twitter, e prefiro o simpático passarinho azul lá do início, que sugeria um futuro melhor, e isso me lembra da ideia que tínhamos do que seria a Era de Aquário, no final do século XX, e não essa incógnita representada pela letra x, que expressa muito bem a interrogação permanente sobre um futuro incerto, que, ao meu ver, é a caraterística mais marcante deste século XXI.
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